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ROCK & REVOLUÇÃO NA HOMENAGEM AO ZÉ DA MESSA
João Ribas com os "Revolta" no concerto da APSR. Clica para ampliar.O concerto de homenagem ao Zé da Messa juntou mais de 500 pessoas ao som de bandas rock solidárias, algumas a recordar na Caixa Económica Operária as músicas que tocaram no Bar das Palmeiras no fim da década de 80. Vê aqui as fotos do concerto, o documentário sobre o Zé da Messa e ouve a reportagem da TSF.

 

A homenagem contou com a participação das bandas Albert Fish, Ex-Votos, Dalailume, Revolta, Gazua e Peste & Sida. Também João Ribas - antigo vocalista dos Censurados - participou neste concerto, recordando que na noite do assassinato de José Carvalho era a sua banda que ia tocar no bar das Palmeiras. 

Na intervenção de abertura, José Falcão agradeceu a todos os elementos das bandas e à equipa que produziu este concerto, os mesmos que em 1989 participavam com o PSR na luta para acabar com o serviço militar obrigatório. A meio do concerto, ainda houve a estreia de um vídeo sobre a história de vida, de luta e de amizade do Zé da Messa.

 


João Carlos Louçã fez a apresentação do filme com este depoimento:

Que bom ver tanta gente aqui que sabe porque está aqui.

E não só porque resolvemos comemorar assim o aniversário de um assassinato que nos marcou e que marcou o país em que vivíamos há 20 anos atrás. Estamos aqui sobretudo porque nos queremos lembrar desse homem, de quem foi e de como viveu.

Um homem extraordinário que viveu um tempo extraordinário. Primeiro o tempo da revolução de Abril de 74. A descoberta da liberdade. O poder que, por instantes, saiu dos gabinetes para a rua, para as assembleias em que participou como soldado, contra a guerra colonial, contra as hierarquias e a cultura de submissão.

Depois o tempo pesado da normalização que foi o da contra-revolução, e também da resistência operária na Messa, pelo emprego e pela dignidade. Da fábrica onde trabalhou desde os 14 anos, dessa luta já antiga, temos ainda exemplos de imaginação e de uma enorme combatividade. De democracia sindical que ainda nos faz tanta falta.

Mais tarde, como muitos de nós, viveu o tempo do antimilitarismo. Da contestação à tropa e à educação obrigatória para obediência cega à pátria. Lado a lado com uma geração que escolheu não se conformar com a violência da recruta e da inevitabilidade dos 18 ou 24 meses passados dentro das casernas. Os concertos no Bar das Palmeiras eram momentos importantes desta campanha e deste tempo em que a música, que também aqui está esta noite, era porta-voz fundamental.

Hoje a tropa já não é ameaça obrigatória, o militarismo tem que usar as máscaras da integração, mas as missões portuguesas em guerras prolongadas de ocupação, ou os gastos faraónicos e obscuros nos submarinos, aí estão para nos lembrar que nunca uma luta é inteiramente ganha.

Hoje o desemprego é realidade que atinge grande parte da sociedade, não só sectores industriais. O estigma que deixa nas vidas que condena, aí está para nos lembrar a Messa dos anos 70 e 80, as marchas a pé de Mem Martins para Lisboa, a ocupação das galerias no Palácio de São Bento, as administrações e os governos para quem a vida dos trabalhadores nada significava.

Um tempo extraordinário e um homem extraordinário que deixou marcas profundas em quem o conheceu. No PSR dizia-se “antipatizante”, forma de subverter as nossas próprias regras de funcionamento e rigidez orgânica. Avesso a protagonismos, foi presença indispensável em todos os momentos da nossa vida colectiva.

Organizava geralmente a cozinha e a logística de todos os encontros. Festa e política, política e festa - sabia que as duas tinham que andar sempre lado a lado. Na revolução que ele queria, teria que haver lugar para todos dançarmos. Ou não valeria a pena.

Pergunto-me, por vezes, como veria o Zé este tempo e a política que hoje fazemos. Com mais gente, mais responsabilidade, representação parlamentar, espaço de comunicação… Não tenho uma resposta. Mas tenho a certeza que continuaria a estar e a exercer as suas formas particulares de militância. A discordar sempre que o entendesse, a fazer valer os seus argumentos, nos bastidores a trabalhar. E a rir porque há tanta coisa para nos fazer rir.

O Zé estaria certamente com o PSR no Bloco, mas capaz de olhar à sua volta e de ultrapassar todas as linhas que vão separando a esquerda. Sem conformismos, na prática, onde fosse preciso. E sempre que fizesse falta. Inventando formas e continuando velhas lutas que são afinal as de sempre. Com os movimentos para além dos partidos. Com toda a gente que lutasse e quisesse coincidir nas lutas.

Se aqui estivesse hoje, cerveja na mão, a abanar a carola, ao fundo da sala, enrolaria uma broca para partilhar com quem estivesse à sua volta.

O filme que vão ver a seguir é, como não podia deixar de ser, uma homenagem ao que foi a vida desse homem extraordinário. Momentos que escolhemos para marcar esta noite, e uma forma de dizer que aquilo que ele foi em vida, tem incomparavelmente mais importância do que as circunstâncias brutais da sua morte.

Espero que gostem.

Caixa Económica Operária, Lisboa, 30 de Outubro 2009

 


Fotogaleria do concerto

 


Ouve aqui a reportagem do concerto na TSF

 


VÍDEO - 1ª PARTE  


 


 

VÍDEO - 2ª PARTE


 

 
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