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Faz agora dois anos que o Daniel partiu. Foi a oportunidade para o secretariado da IV Internacional organizar um seminário sobre a sua ação e pensamento. Não se tratava de fazer uma iniciativa "espetacular", mas de trabalhar durante três dias para aprofundar uma série de questões abordadas pelo teórico, filósofo e militante político que foi o Daniel.
Três dezenas de pessoas encontraram-se em Amesterdão, nas instalações do Instituto Internacional de Investigação e Formação: intelectuais, militantes, amigos, a sua companheira. Eram todos camaradas que amaram, trabalharam, pensaram e militaram juntamente com o Daniel. Outros ainda, que tinham manifestado vontade de participar neste encontro, acabaram por não conseguir vir à Holanda.
O seminário teve uma dimensão internacional notável, com a presença de responsáveis de organizações da esquerda revolucionária ou anticapitalista do Brasil (PSOL), Portugal (BE), Grã-Bretanha (SWP), França (NPA), Bélgica (LCR), Itália (Sinistra Critica), Estado Espanhol (Izquierda Antcapitalista) e País Basco. Internacional também, porque o pensamento de Daniel - desde os anos 60 - prosseguia sempre "uma visão do mundo", uma percepção da dialética das lutas de classes à escala mundial.
Filosofia, teoria, experiências políticas, responsabilidades organizativas: torna-se difícil separá-las na história e na obra de Daniel, uma vez que estão incorporadas no seu trabalho de elaboração e na sua ação militante, na construção ou reconstrução de um marxismo revolucionário aberto e crítico. Um trabalho de "refundação" levado a cabo desde os anos 80 até ao fim da sua vida, que foi aqui relembrado por diversos participantes.
No entanto, durante estes três dias tentámos alternar questões teóricas e experiências políticas. Começámos por uma série de contributos sobre o "marxismo de Daniel", apresentados por Samy Johsua, Philippe Pignarre, Michael Löwy, Cinzia Arruza, Alex Callinicos, Philippe Corcuff e Carlos Carujo.
Catherine Samary introduziu um debate sobre os textos de Daniel sobre a contrarrevolução estalinista e as "potências do comunismo" que poderiam permitir a reconstrução dum pensamento socialista. Alain Krivine lembrou a sua experiência política comum com Daniel no Maio de 68 e nos anos seguintes, e a importância das responsabilidades organizativas que ele assumiu. Foi também a ocasião para regressar ao papel fundamental que ele teve no trabalho de formação em França, os acampamentos de juventude na Europa e as sessões internacionais do Instituto de Amesterdão - tudo numa perspetiva de renovação das direções.
Esta discussão prolongou-se com intervenções sobre as relações de Daniel com várias organizações nas experiências de ascenso revolucionário em Portugal, País Basco e Espanha em meados dos anos 70. João Machado, hoje dirigente do PSOL, falou dessas ligações de Daniel ao Brasil durante quase 25 anos, e a ajuda que trouxe tanto no momento em que os grupos e os militantes revolucionários se juntaram para construir a secção brasileira da IV Internacional, como na experiência histórica de construção dum partido operário de massas, o PT brasileiro. O revolucionário brasileiro explicou também os ensinamentos sobre a degenerescência deste partido num partido social liberal e a crise que dividiu a nossa secção.
Pierre Rousset fez uma apresentação sobre o lugar da teoria da revolução permanente na elaboração teórica e política de Daniel, bem como as questões que hoje se levantam com a emergência de novas potências mundiais e as revoluções árabes. Esther Vivas examinou as continuidades e as descontinuidades entre movimento alterglobalização e o movimento dos indignados, nomeadamente no Estado Espanhol, à luz dos mais recentes textos de Daniel Bensaïd.
O seminário encerrou com uma intervenção de François Sabado, membro do secretariado da IV, sobre a ação política conduzida por Daniel para o nosso movimento e o seu contributo para as formas de construção da Internacional. Após este seminário, que contou com intervenções e debates de grande qualidade, a vontade de todos e todas é de continuar. Continuar a trabalhar sobre as questões levantadas por Daniel, transmitir as suas ideias, a memória do seu combate. Uma primeira decisão já foi tomada: publicar os principais contributos deste seminário num livro sobre as diversas dimensões do pensamento de Daniel Bensaïd.
Sophie, a sua companheira, apresentou-nos o projeto de página na internet dedicada a Daniel - não apenas à evocação dos seus textos, mas um site vivo, que faça o vai-vem entre os textos fundamentais de Daniel e o desenvolvimento do pensamento e da ação política contemporânea. Finalmente, tivemos uma excelente novidade, dada por Carmen Castillo, antiga dirigente do MIR chileno, companheira de Miguel Enriquez, e realizadora de cinema, que tenta conseguir fundos para fazer um filme em torno de Bensaïd e do empenho militante: obteve um adiantamento por parte do Centro Nacional do cinema francês.
Resumindo, há muito trabalho, não só para dar vida ao pensamento de Daniel, mas também, nestes tempos difíceis, para tentar transmitir um capital que pode ajudar as gerações revolucionárias atuais e futuras.
Publicado no site da Inprecor. Tradução: Luís Branco
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