Leiturasformação marxista /  KAUTSKY, REGRESSA, ESTÁS PERDOADO
KAUTSKY, REGRESSA, ESTÁS PERDOADO PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Francisco Louçã   
Toni Negri defendeu a ideia de que este novo Império unitário não teria centro, e mesmo que haveria uma contradição entre a política dos Estados Unidos e os interesses do Império – o que foi desmentido categoricamente pelos factos da guerra iraquiana. Hardt foi mesmo mais longe, pondo em contradição o "anti-americanismo" das manifestações anti-guerra com o movimento necessário contra a globalização dominante. Curiosamente, os dois autores fazem no "Império" uma vénia à crítica de Lenine contra Kautsky, mas dão-lhe razão em 1914, não para os dias de hoje.

 

Nos primeiros dias de Setembro, Colin Powell foi à ONU propor a aprovação de uma resolução organizando o envio de uma força multinacional. A Rússia anunciou a sua disponibilidade, se viesse a haver consenso no Conselho de Segurança, mas a França e a Alemanha, embora saudando a mudança de atitude da Casa Branca, manifestaram oposição ao projecto, com o argumento de que não define o poder da ONU sobre a administração civil do território. Iniciou-se assim um período de negociação que, no momento de escrever este artigo, ainda não sabemos como termina – embora seja de prever que algum tipo de acordo vá sendo desenhado na ONU.

De facto, o Conselho de Segurança da ONU já aceitou, em resolução de 22 de Maio, legitimar a ocupação norte americana e britânica e a sua autoridade no Iraque. Mas, a 22 de Julho, o embaizxador americano na ONU, Negroponte, apresentou ao Conselho de Segurança três dos 25 membros do recém nomeado conselho de governo do Iraque nomeados por Bremer. Imediatamente, o embaixador espanhol fez circular um projecto de resolução para consagrar a legitimidade deste, mas foi depois obrigado a retirar o texto, tendo sido aprovado um voto piedoso que "felicitava" o Conselho por ter sido nomeado e se ficava por aí. Vale a pena lembrar que este Conselho não tem qualquer poder, e que a autoridade suprema do vice-rei Paul Bremer se sobrepõe a todas as outras, a 14 de Agosto.

Com a actual resolução, o governo norte-americano pretende agora consagrar este Conselho como "autoridade interna" do Iraque, mantendo-se a sua subordinação total, ao mesmo tempo que quer comprometer forças militares de outros países na ocupação, dividindo portanto os custos em vidas de soldados e em dinheiro. Mas o poder não seria dividido em qualquer caso.

Uma luta interna em Washington

Num artigo publicado no Weekly Standard de 1 Setembro, o principal jornal dos neo-conservadores norte-americanos, os seus dois ideólogos e publicistas mais destacados, William Kristol e Robert Kagan, sob o título de "Fazer o que é preciso no Iraque ", explicam que, para cumprir a "visão" do presidente, está em jogo uma luta decisiva. Essa "visão" do visionário Bush seria reconstruir o Médio Oriente, tal como a Europa foi reconstruída no pós-guerra. E estaria tudo em jogo: "O curso futuro da política externa americana, a liderança mundial, a segurança americana, estão em risco". Só se pode ganhar.

Por isso mesmo, exigem mais tropas, mais dinheiro e mais pessoal. Mais duas divisões, contabilizam, porque mesmo que haja apoio militar de outros países, não se pode contar com eles. E mais dinheiro: mais 60 biliões de dólares ano, o que significa mais do que duplicar o total dos gastos actuais com a ocupação do Iraque, que andam pelos 48 biliões.

Pelos mesmos dias, Richard Perle, um dos homens fortes do Pentágono, e um dos dirigentes políticos dos neo-conservadores, explicava ao Figaro que não era de aceitar a administração da ONU. Paul Wolfowitz, o principal sub-secretário de estado da Defesa, dizia a 28 de Julho a um comité do Senado que eram precisas tropas estrangeiras, desde que a autoridade de Bremer não fosse posta em causa – isto é, desde que os Estados Unidos continuem a dirigir a ocupação.

E é isso mesmo que Colin Powell foi propor à ONU: a força multinacional de intervenção seria dirigida por militares norte-americanos, que falariam em seu nome e tomariam as decisões. Só que Powell abre uma caixa de Pandora ao reconhecer que as forças americanas são insuficientes ou estão com dificuldades em vencer a resistência e em impor a sua ordem. Os neo-conservadores, que nem querem ouvir falar em dividir o poder em Bagdade, lançaram-se por isso numa campanha pública para evitar qualquer acordo na ONU.

A Rússia, a França e a Alemanha perceberam, no entanto, que esta mudança de posição da Casa Branca já revelava uma fragilidade e querem aproveitar a oportunidade para mudar o jogo. Deste modo, vão insistir em que seja a ONU a comandar a força e a decidir a administração do Iraque, em vez de Bush, porque deste modo passam a ter acesso à partilha do controlo do petróleo e de outras riquezas do saque iraquiano. O poker diplomático na ONU é este: trocam-se tropas por barris.

Impasse militar

Em Agosto, os EUA tinham 146 mil soldados no Iraque, mais 11 mil britânicos e mil australianos. Estas são as forças de combate. Por outras palavras, 16 das 33 brigadas norte-americanas activas, que estão sempre preparadas para combate, estão colocadas no Iraque. Devemos contar ainda com outras duas brigadas no Afeganistão, duas na Coreia do Sul, uma nos Balcãs: sobram então 12. É desta dúzia de brigadas que os comandantes militares norte-americanos têm de tirar os reforços e os substitutos para as tropas activas no Iraque nos próximos meses. Por outras palavras, a capacidade militar de Bush está esticada até ao limite, e, ao contrário da orgulhosa doutrina militar nacional, não tem capacidade para desencadear duas guerras em simultâneo – e é por isso que Bush tem tido tanto cuidado em não agravar a crise norte-coreana, porque não pode fazer nada.

Segundo o New York Times de 24 de Julho, só três brigadas poderiam estar disponíveis para nova missão. Por isso, no dia 3 de Agosto, um analista militar, Michael Hanlon, do Brookings Institute, declarava ao Japan Times que "isto torna a situação muito difícil para o exército. No final do próximo ano, virtualmente todas as brigadas de combate terão estado um ano no estrangeiro. Entre outros problemas, isto levanta a questão de saber quem irá em 2005, assumindo que a missão no Iraque continue difícil e que exija muitas forças americanas. Mandar para o Iraque soldados que já lá estiveram pode destruir a moral das forças americanas, convencendo muitos dos nossos melhores soldados a abandonarem o serviço". A operação militar está num impasse: não pode retirar, e não tem forças suficientes para continuar.

Bush bem tentou. No dia 23 de Julho, fez um apelo a outros países, mas os compromissos ficaram até agora pelos 16 mil soldados, pelos quais os EUA pagariam 240 milhões de dólares. Comparado com a primeira guerra do Golfo, que foi totalmente paga pelos sauditas, pelos japoneses e pelos alemães, a actual guerra é uma tragédia financeira: custou cerca de 80 biliões, e agora custa mais 4 biliões por mês, sem contar com o preço dos serviços para a recuperação – há quem fale em mais 30 biliões só para reconstruir as infraestruturas do petróleo. E, além do dinheiro, faltam as tropas para controlar o país em guerra civil. Porque, bem feitas as contas, mesmo os 16 mil soldados de reforços não chegam. E esses incluem mil do Japão, que estão à espera de autorização da ONU. Pior ainda, um terço destas tropas não tem qualificações para combate ou estão proibidos de combate pelos seus governos.

Kautsky, volta


E é aqui que entra Kautsky, de novo. O que é que esta crise política e militar nos ensina? Kaustsky defendeu a tese, há noventa anos, de que o imperialismo evoluia, em função da concentração de capital e de poder, para uma nova fase, a que se propôs chamar de "ultra-imperialismo". Este ultra-imperialismo corresponderia a uma unificação das potências capitalistas num poder único, superando as suas principais contradições, de que tinha resultado a Primeira Guerra Mundial e a disputa das colónias, por exemplo. Lenine combateu este ponto de vista, argumentando que ainda se mantinha e manteria todo este conflito.

Ora, as teses kautskistas renascem agora pelas vias mais surpreendentes. Em primeiro lugar, por Toni Negri e Michael Hardt, que escreveram o interessante e polémico "Império". Num artigo de divulgação do seu livro, Negri explicou como acabaram os imperialismos neste novo espaço, neste buraco negro do poder mundial: "Na actual fase imperial, já não há imperialismo – ou, quando subsiste, é um fenómeno de transição para uma circulação de valores e de poderes à escala do Império. Do mesmo modo, já não há Estados-Nação, porque lhes faltam as três características substanciais da soberania (militar, política e cultural), absorvidas ou substituídas pelos poderes centrais do Império. A subordinação dos antigos países coloniais aos Estados-Nação imperialistas, tal como a hierarquia imperialista dos continentes e das nações desaparecem ou dissolvem-se assim: tudo se reorganiza em função do novo horizonte unitário do Império" ("L’Empire, stade suprême de l’impérialisme", Janeiro de 2001, Monde Diplomatique).

Em consequência, Negri defendeu a ideia de que este novo Império unitário não teria centro, e mesmo que haveria uma contradição entre a política dos Estados Unidos e os intereses do Império – o que foi desmentido categoricamente pelos factos da guerra iraquiana. Hardt foi mesmo mais longe, pondo em contradição o "anti-americanismo" das manifestações anti-guerra com o movimento necessário contra a globalização dominante. Curiosamente, os dois autores fazem no "Império" uma vénia à crítica de Lenine contra Kautsky, mas dão-lhe razão em 1914, não para os dias de hoje. Deste modo, a tese de Kautsky é recuperada: o Império é hoje estruturalmente o "ultra-imperialismo", no contexto das formas de poder típicas do século XXI.

Mas há ainda uma outra versão kautskista moderna, que é a que pretende que todo o dispositivo do poder internacional está resumido a George Bush, imperador do império infinito e que por exemplo a ONU é um seu mero instrumento. Ora, a ONU, que durante o pós-guerra foi o fórum de coexistência e de regulação entre os estados imperialistas e a URSS e a China, organizando as disputas territoriais ou contendo-as, é, como sempre foi, o resultado de uma relação de forças em que politica e militarmente os EUA têm ganho predominância. Mas em que este não existe sózinho, e em que é, pelo contrário, forçado a negociar com outros poderes imperiais. O imperialismo não está unificado, como os factos iraquianos e a resistência de Chirac e Schroeder demonstraram; não existe um ultra-imperialismo, como a dificuldade da gestão iraquiana e a paralizia militar do Pentágono demonstram; não existe um ultra-Império, como o agravamento da crise do Médio Oriente prova. A ONU é hoje o palco da concorrência inter-imperialista e de outras potências menores pelo petróleo, e não pode ser reduzida a uma agência de Washington – por mais que George Bush apreciasse que isso fosse verdade.

A prova dos factos é sempre a mais teimosa de todas.

Francisco Louçã

Share

 

Newsletter

Quem somos

A Associação Política Socialista Revolucionária é uma corrente de militantes do Bloco de Esquerda. A associação representa os militantes portugueses da IV Internacional, na continuidade das ideias e actividades do PSR. Vê aqui a cronologia da história da corrente.

Contacto

Rua da Palma, 268
Lisboa
Portugal
1100-394
Contactos aqui.

Copyright © 2012. associação política socialista revolucionária | combate.info. Designed by Shape5.com