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Líbia e Bahrein: duplicidade e hipocrisia PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Mogniss H. Abdallah   

Foto شبكة برق B.R.Q/FlickrA guerra na Líbia, a ocupação militar estrangeira no Bahrein e a aniquilação da revolução árabe: "Não em meu nome!", diz o escritor egípcio Mogniss H. Abdallah.

 

O laborioso debate sobre o estabelecimento duma "no-fly zone" resultou numa resolução da ONU que é um sinal verde a um envolvimento militar internacional na Líbia. Sem "ocupação" militar terrestre, precisam. Ao mesmo tempo, o exército saudita e a polícia dos Emirados chegam ao Bahrein para participar no esmagamento duma revolução pacífica e democrática: um assalto militar desencadeou-se na quarta-feira para desmantelar um acampamento na praça rebaptizada de Tahrir, numa referência explícita à revolução egípcia. Os helicópteros dispararam sobre o povo: houve mortos, dezenas de feridos que não puderam chegar ao hospital de Manama, sitiado pelos tanques e blindados do exército saudita. O poder instaura a lei marcial e procede à prisão de figuras da oposição democrática, xiitas e sunitas. No Bahrein, a resposta ao movimento de luta pelos direitos cívicos é a repressão sob ocupação militar estrangeira… e sob o olhar da V Frota dos EUA, que já dispõe ali de uma base naval.


Alguns países, como os Emirados Árabes Unidos que participam abertamente na ocupação militar-policial do Bahrein, também se ofereceram para a intervenção militar na Líbia. Assim, os regimes implicados directamente na repressão num país árabe dizem querer agir contra a repressão e os massacres noutro país árabe? Que hipocrisia! Os activistas da solidariedade internacional não podem sob nenhum pretexto caucionar esta duplicidade que ameaça o futuro das revoluções democráticas em curso em todo o mundo árabe, berbere e africano.

Em todo o caso e para além da avaliação necessária dos complexos interesses geoestratégicos aqui em jogo, devíamos interrogar-nos seriamente sobre o nosso papel na situação actual. Como poderíamos regozijar-nos ante a crescente militarização na Líbia e noutros lugares?

Gostaria de dizer francamente aos amigos líbios sinceros na sua aspiração pela liberdade: nós condenamos incondicionalmente os massacres das populações na Líbia por Kadhafi e o seu regime. Mas estou indignado com o slogan "One, two, three, Viva Sarkozy" cantado em Benghazi e com a associação do Conselho Nacional para a Transição ao "guerreiro de sofá" Bernard Henri-Levy. Amigos líbios, também gostava de vos ouvir condenar claramente os insultos racistas e as ameaças em larga escala contra imigrantes negros africanos, egípcios e outros, que são um quarto da população do país. Gostava de vos ver apoiar os povos em luta, a começar pelos do Bahrein e do Iémen, que hoje são vítimas duma repressão terrível levada a cabo com a cumplicidade directa daqueles que agora, pelo contrário, dizem vir em vosso auxílio.

Amigos da solidariedade internacional, quando apoiamos o povo da Líbia, não calemos a nossa solidariedade com o as lutas de todos os povos árabes. E não tenhamos medo do debate contraditório entre nós e inclusive com os nossos camaradas líbios. Não pode haver unidade pelos mínimos! Não sejamos cúmplices da balcanização da Líbia e dos países da região. Lembremo-nos do precedente da Somália desmantelada sob os auspícios duma intervenção militar-humanitária com o nome charmoso de "Restaurar a Esperança"…



Mogniss H. Abdallah é escritor, realizador e produtor egípcio que participou e documentou as principais lutas dos imigrantes sem-papéis em França desde os anos 80. Publicado no site do Nouveau Parti Anticapitaliste.
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