Cada vez que acontece, temos vontade de acreditar nos anúncios de paz anteriores às reuniões da cimeira que Washington impõe ao presidente da Autoridade Palestiniana e ao Primeiro-ministro israelita. Mas a realidade é muito diferente... Por Michel Warschawski
A realidade é, em primeiro lugar, uma ofensiva sem precedentes da colonização judia, na Cisjordânia, e, particularmente, em Jerusalém Leste. Uma colonização que se faz à luz do dia e não às escondidas, apesar das tentativas abortadas de Barak Obama de que haja, pelo menos, um pouco de discrição. A realidade é um governo de extrema-direita cujo programa, ideologia e estratégia são a ampliação das fronteiras do estado de Israel através da colonização. A realidade é um ministro israelita dos assuntos exteriores - Avigdor Liberman - que, na tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas, engana abertamente toda a gente quando fala do processo de paz. A realidade israelita é um grande conjunto de leis votadas (ou em vias de o ser) no parlamento: a intenção de criminalizar o apelo a sanções ou o recurso a instâncias judiciais internacionais, por eventuais crimes de guerra; outra que relaciona naturalização e juramento de fidelidade ao carácter judeu do Estado de Israel; e uma outra que prevê "retirar a nacionalidade" (sic) a uma deputada israelita árabe por ter participado na flotilha. E a lista é cada vez maior.
Salientamos ainda o processo contra o militante palestiniano de Haifa, Ameer Makhbill, que acaba de ser condenado a sete ou dez anos de prisão (o juiz decidirá proximamente a pena exacta) por se ter reunido com militantes próximos do Hezbolah na Jordânia. O jornalista israelita Gideon Levy/1 escrevia recentemente que a adopção destas leis transformava a natureza do regime de democracia em etnocracia. Pela primeira vez, estou em desacordo com quem é considerado o melhor editorialista israelita: o Estado judeu, como se define a si próprio, foi sempre uma etnocracia. As mudanças constitucionais postas em marcha pelo governo de extrema-direita vão fazer de Israel um estado fascista no qual o cidadão deve prestar juramento de fidelidade ao estado.
A realidade israelita é o aumento de incidentes racistas cada vez mais violentos nas cidades mistas com o apoio das autoridades locais, a incitação das autoridades religiosas e a passividade das forças da polícia. É a expulsão em massa de refugiados que fogem da miséria e da guerra, tentando encontrar um refúgio e um emprego em Israel. A realidade israelita é uma classe política corrompida, um antigo chefe de estado - Moshe Katsav - processado por violação, um neo-liberalismo desenfreado ao lado do qual a Grã-Bretanha de Margaret Thatcher parece um estado socialista, uma sociedade em que um terço das crianças vive abaixo do nível de pobreza e na qual as protecções sociais, que durante muito tempo foram das melhores do mundo capitalista, são sistematicamente desmanteladas. Finalmente, a realidade de Israel, em 2010, é uma sociedade "consensual" na qual as vozes dissidentes são afogadas e em que o movimento pela paz, que durante muito tempo representou a honra de Israel, não é senão uma antiga recordação. Uma sociedade cujo parlamento está dividido entre a direita extrema e a extrema direita e da qual desapareceu tudo o que pudesse ser caracterizado de moderado (à parte dos nove deputados eleitos pela minoria árabe). Mas a realidade israelita é também uma grande cegueira, uma arrogante incapacidade de ver as nuvens que se acumulam no horizonte e que estão carregadas de enormes tempestades. O mundo que nos rodeia está a mudar: a Turquia, outrora aliada estratégica no quadro da NATO, toma as suas distâncias, o Irão converte-se numa grande potência regional e, no Líbano, os Estados Unidos não conseguem impor a sua contra-reforma. Outra cegueira dos dirigentes israelitas: a entrada em força de novos actores regionais - Rússia, China e Índia - que leva ao fim da hegemonia total dos Estados Unidos e da aliança Washington-Telavive na região. Dentro de uma dezena de anos, o Médio Oriente não terá nada a ver com o fantasma neoconservador do Império americano. As resistências acumuladas no Líbano, na Palestina, no Iraque e no Afeganistão acalmam as ambições imperiais dos Estados Unidos. Tarde ou cedo, irão restabelecer a talha real do Estado de Israel e fazer calar a sua loucura desmedida. Mas, aparentemente, os media e a chamada comunidade internacional preferem o virtual ao real, o sonho às realidades. Neste sentido, o caso palestiniano é um aviso contra a informação de massas que se converteu num ópio dos povos, um soporífero para os cidadãos. "Apagai a televisão, pois ela mente-vos", diziam os manifestantes de 1968. Mais de quatro décadas passaram e o apelo mantém toda a sua pertinência.
* Michel Warschawski, é jornalista, escritor e activista pacifista. Criou o Centro de Informação Alternativa de Jerusalém, uma organização israelo-palestiniana que divulga estudos e análises políticas sobre a Palestina e Israel e promove a cooperação entre palestinianos e israelitas, com base em valores de justiça social, solidariedade e no envolvimento da comunidade. Tradução António José André
Notas:
1/ Ler: Gidéon Levy, Gaza, articles pour Haaretz, 2006-2009, La Fabrique, 2009. Ler também a entrevista de Gidéon Levy dada a Najate Zouggari en CQFD nº 75, fevereiro de 2010 ndlr. CQFD n° 83, novembre 2010. |