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Holocausto Cigano: Ontem e Hoje PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por José Steinsleger   

Foto Philippe Leroyer/FlickrA perseguição do povo cigano atravessou o passado milénio e chega aos nossos dias com as deportações ordenadas por Sarkozy e a discriminação nos países de origem dos deportados. Artigo de José Steinsleger.

 

 

1496: Auge do pensamento humanista. Os povos rom (ciganos) da Alemanha, são declarados traidores para com os países cristãos, espiões a soldo dos turcos, portadores da peste, bruxos, bandidos e sequestradores de crianças.

1710: Século das luzes e da razão. Uma lei ordena que os ciganos adultos de Praga sejam enforcados sem julgamento. Os jovens e as mulheres são mutilados. Na Boémia, cortam-lhes a orelha esquerda. a Morávia, a orelha direita.

1899: Clímax da modernidade e do progresso. A polícia da Baviera cria a Secção Especial de assuntos ciganos. Em 1929, a secção foi elevada à categoria de Central Nacional e transferida para Munique. Em 1937, instala-se em Berlim. Quatro anos depois, meio milhão de ciganos morre nos campos de concentração da Europa central e do Leste.

2010: Fim das ideologias (sic). Em Itália, (onde nasceu a razão do Estado) e, em França (sede mundial da elite intelectual), os gabinetes de ambos governos (com forte apoio popular, o seja, democráticos), deportam milhares de ciganos para a Bulgária e Roménia.

A tragédia dos rom começou nos Balcãs. Que drama europeu não começou nos Balcãs? Em meados do século XV, o príncipe Vlad Dracul (o Demónio, um dos heróis nacionais da resistência contra os turcos), regressou de uma batalha travada na Bulgária com 12.000 escravos ciganos. Com certeza…não era cigano o misterioso cocheiro do conde Drácula?

O doutor Hans Globke, um dos redactores das leis de Nuremberga sobre a classificação da população alemã (1935), declarou: os ciganos são de sangue estrangeiro. Estrangeiros de onde? Sem poder negar que cientificamente eram de origem ariana, o professor Hans F. Guenther classificou-os numa categoria à parte: Rassengemische (mistura indeterminada).

Na sua tese de doutorado Eva Justin (assistente do doutor Robert Ritter, da secção de investigações raciais do Ministério da Saúde alemão), afirmava que o sangue cigano era perigoso para a pureza da raça alemã. E um tal doutor Portschy enviou um memorando a Hitler sugerindo que os submetesse a trabalhos forçados e à esterilização em massa, porque punham em perigo puro sangre pura do campesinato alemão.

Classificados de criminosos inveterados, os ciganos começaram a ser detidos em massa e, a partir de 1938, foram internados em blocos especiais n os campos de Buchenwald, Mauthausen, Gusen, Dautmergen, Natzweiler e Flossenburg.

Num campo da sua propriedade de Ravensbruck, Heinrich Himmler, chefe da Gestapo (SS), criou um espaço para sacrificar mulheres ciganas que eram submetidas a experiências médicas. Esterilizaram-se 120 meninas ciganas. No hospital de Dusseldorf-Lierenfeld esterilizaram-se ciganas casadas com não ciganos.

Milhares de ciganos foram deportados da Bélgica, Holanda e França para o campo polaco de Auschwitz. Nas suas Memorias, Robert Hoess (comandante de Auschwitz), conta que entre os deportados ciganos havia velhos quase centenários, mulheres grávidas e um grande número de crianças.

No gueto de Lodz (Polónia), as condições foram extremas. Nenhum dos 5.000 ciganos sobreviveu. Mais de trinta mil morreram nos campos polacos de Belzec, Treblinka, Sobibor e Maidaneck.

Durante a invasão alemã à União Soviética (Ucrânia, Crimeia e países bálticos) os nazis fuzilaram em Simvirpol (Ucrânia) 800 homens, mulheres e crianças na noite de Natal, em 1941. Na Jugoslávia, executava-se por igual ciganos e judeus no bosque de Jajnice. Os camponeses recordam os gritos das crianças ciganas levadas para os locais de execução.

Segundo consta nos arquivos das Einsatzgruppen (patrulhas móveis de extermínio do exército alemão), ter-se-iam assassinado 300.000 ciganos na URSS e 28.000 na Jugoslávia. O historiador austríaco Raoul Hilberg, estima que antes da guerra viviam na Alemanha 34.000 ciganos. Ignora-se o número de sobreviventes.

Nos campos de extermínio, só o amor dos ciganos pela música foi às vezes um consolo. Em Auschwitz, esfomeados e cheios de piolhos, juntavam-se para tocar e estimulavam as crianças a bailar. Mas também era lendária a coragem dos guerrilheiros ciganos que militavam na resistência polaca, na região de Nieswiez.

“Também eu tinha/uma grande família/foi assassinada pela Legião Negra/homens e mulheres foram esquartejados/entre elas também crianças pequenas [versos do hino rom].”

As exigências de assimilação, expulsão ou eliminação (não necessariamente por esta ordem) justificariam a afeição dos povos rom pelos talismãs. Os ciganos têm três nomes: um, para os documentos de identidade do país onde vivem; outro, para a comunidade e, um terceiro, que a mãe musa durante meses ouvia do recém-nascido. Esse nome, secreto, servirá como talismã para protegê-lo contra todo o mal.

Depois da segunda guerra, os países aliados dissolveram o Estado nazi alemão e os seus chefes foram julgados por crimes contra a humanidade (Nuremberga, 1945-1946). Nos inícios de 1950, quando começou a negociação das indemnizações pelo holocausto, o novo Estado alemão estimou que só os judeus tinham direito a elas.

Sem organizações políticas que os defendessem, os povos rom (ciganos) foram ignorados e excluídos. O governo democrata-cristão de Konrad Adenauer estimou que as medidas de extermínio tomadas contra os ciganos, antes de 1943, eram políticas legítimas do Estado. Os sobreviventes dessa altura não cobraram um centavo.

A polícia criminal da Bavária ficou com os arquivos do doutor Robert Ritter, o expert nazi sobre os rom, que não foi condenado. Ritter retomou a actividade académica e, em 1951, suicidou-se. Recentemente, em 1982, o chanceler social-cristão Helmut Kohl reconheceu o genocídio dos rom. A tempo: a maioria que tinha tido direito à restituição já tinha morrido.

Em troca, o saneamento da Suíça contra os yenishes (assim são chamados os ciganos no país de Heidi) foi mais… discreto? Durante cerca de meio século (desde 1926), com a ajuda da polícia e do clero, a Obra de Assistência às Crianças da Rua, da muito respeitável Fundação Pró-Juventude, arrancou das suas famílias mais de 600 crianças ciganas.

O doutor Alfred Siegfried (1890-1972), director e fundador da obra, foi um psicopata ferozmente decidido a vencer o mal do nomadismo. Num relatório sobre as suas actividades (1964), Siegfred afirmou que “…o nomadismo, como algumas doenças perigosas, é transmitido principalmente pelas mulheres… todos os zíngaros são maus, mentem, roubam…”.

O financiamento oficial manteve-se até 1967, e, em 1973, a obra dissolveu-se. Mas, de acordo com uma lei de 1987, tudo o que se relacione com as suas experiências médicas com crianças ciganas poderá ser revisto dentro de… cem anos. Em 1996, a Confederação Helvética reconheceu a sua responsabilidade moral, política e financeira no que respeita à Pró-Juventude, encarregada de proteger as crianças ameaçadas de abandono e vagabundagem.

Mais das três quartas partes da população mundial de ciganos (12 a 14 milhões), vive nos países da Europa central e do Leste. Mas só na Jugoslávia de Tito os rom conseguiram ser reconhecidos como uma minoria com os mesmos direitos que os croatas, albaneses e macedónios. Não obstante, com o reordenamento balcânico que teve lugar em 1990, dez mil ciganos bósnios refugiaram-se em Berlim.

Na Roménia os ciganos tiveram que sobreviver à ditadura de Ceausescu. O socialismo real reforçou os tenebrosos orfanatos que funcionavam desde a época da monarquia e neles encerrou milhares de crianças rom. Ceausescu caiu e o livre mercado foi ainda mais duro. As tendas de alguns ciganos que tiveram sucesso económico com a liberalização da economia foram saqueadas.

A deportação massiva de ciganos para a Roménia e Bulgária ordenada pelo governo do presidente francês, Nicolas Sarkozy (judeu de origem húngara), é particularmente perversa. Segundo país mais pobre da União Europeia, a população da Roménia é hostil aos 2 milhões de ciganos que ali vivem e com um governo a cumprir o que o FMI dita: acaba de baixar 25% no salário dos funcionários e subir para 24% o IVA.

Há algum tempo, o presidente romeno, Traian Basescu, chamou cigana asquerosa a uma jornalista e o chanceler Teodor Baconschi declarou em Fevereiro que “…algumas comunidades romenas têm problemas psicológicos (sic) relacionados com a delinquência, especialmente as comunidades ciganas”.

A situação dos ciganos na antiga Checoslováquia continua a ser a mesma saga. Até ao momento da divisão (1992) eram cidadãos. Depois, nem checos, nem eslovacos os reconheceram como tais, apesar de terem vivido durante várias gerações no país.

Em Julho de 1998, um cigano foi atacado e apunhalado por um skinhead, em Pisek, pequena cidade no Sul da Boémia checa. Pisek está situada a escassos quilómetros do campo de concentração de Lety, estabelecido pelos checos e só para ciganos, nos tempos da ocupação alemã. E de Lety, enviavam-nos para os campos nazis de extermínio.

Por se lado, os vizinhos da cidade eslovaca de Michalovce acabam de concluir um muro de 500 metros para evitar a passagem dos ciganos que habitam numa aldeia próxima. A obra recebeu o apoio das autoridades. Em finais de 2009, obras semelhantes isolaram os ciganos nas cidades de Ostrovany, Secovec, Lomnicka e Trebisov.

Nesta espécie de holocausto silencioso e consensual, feita pelos cruzados da União Europeia, os medias da aldeia global fazem das suas. Em 30 de Agosto passado, a CNN informou que um assassino matou oito pessoas, ferindo 14 mais, em Bratislava, capital de Eslováquia. Em parte alguma da noticia, a CNN esclareceu que todas as vítimas eram ciganos.

Da civilização contra a barbárie, à barbárie da civilização.

 


* José Steinsleger é escritor e jornalista argentino. Texto publicado em La Jornada (México). Tradução: António José André.

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