|
O site marxists.org continua a divulgar alguns textos em português da editora Antídoto, publicados em Portugal nos anos 70 e 80. Desta vez trata-se de parte dum livro de Ernest Mandel, "A luta pela democracia socialista na União Soviética", que se debruça sobre o papel assumido por algumas correntes esquerdistas e estalinistas nas assembleias do pós-Maio de 68. O capítulo intitula-se "Sobre a Democracia Operária" e depressa se transformou num manifesto contra a ortodoxia no movimento comunista.
Ernest Mandel -
Sobre a Democracia Operária
Os lamentáveis
incidentes ocorridos na ULB (Universidade Livre de Bruxelas), quando
Garaudy aí foi falar(1), levam-me a explicar mais uma vez
porque é que aderimos aos princípios da democracia
operária.
A democracia
operária foi sempre um princípio básico do
movimento proletário. Era tradição do movimento
socialista e comunista defendê-lo firmemente, no tempo de Marx
e Engels, como no de Lenine e Trotsky e só a ditadura
estalinista na URSS veio abalar tal tradição,
contribuindo igualmente para miná-la a vitória
temporária do fascismo na Europa Ocidental e na Europa
Central. No entanto, as origens deste desafio à democracia
operária são mais profundas e mais antigas: remontam à
burocratização das grandes organizações
operárias. A Social-Democracia e a burocracia sindical foram
as primeiras a começar a minar os princípios da
democracia operária. Começaram por convocar pouco
frequentemente reuniões gerais de sócios; depois
começaram a manobrá-las ou a suprimi-las totalmente e a
restringir ou a abolir a liberdade de discussão e crítica
dentro das suas organizações. Não hesitaram
sequer em chamar em seu auxílio a polícia (e inclusive
a polícia secreta) para combater minorias revolucionárias.
Durante a primeira guerra mundial, a Social-Democracia Alemã
deu um triste exemplo de colaboração com as forças
repressivas do Estado. Nos anos subsequentes, tal exemplo foi seguido
pelos Social-democratas de todo o mundo.
Primeiro
a burocracia soviética, depois os burocratas dos Partidos
Comunistas estalinistas (ou em sindicatos com direcções
estalinistas) seguiram muito simplesmente o padrão
estabelecido pelos Social-democratas, ampliando-o progressivamente.
Aboliram a liberdade de discussão e de tendências.
Calúnias e mentiras substituiram os argumentos e o debate com
tendências opostas. Usaram sistematicamente a força
física para impedir que os seus opositores «causassem
algum dano». Assim, toda a velha guarda bolchevique que
dirigira a Revolução de Outubro e a maioria dos membros
do Comité Central de Lenine foram exterminados por Estaline
durante os negros anos das Grandes Depurações
(1935-38).
A
jovem geração de militantes anti-imperialistas e
anti-capitalistas que agora desenvolvem uma consciência
revolucionária estão a regressar espontaneamente às
tradições da democracia operária. Isto foi
visível em França em Maio e Junho quando, nas
assembleias de estudantes e de trabalhadores e estudantes
revolucionários, foi zelosamente salva-guardada a liberdade de
expressão de todas as tendências.
Mas esta nova
geração nem sempre tem consciência das razões
de princípio e das razões práticas da democracia
operária.
Assim
se explica a vulnerabilidade da juventude a uma espécie de
demagogia derivada da estalinista, espalhada por certas seitas
pró-chinesas que procuram fazer crer que a democracia operária
é contrária aos «interesses da revolução».
Por isso, é necessário reafirmar com força essas
razões.
O
movimento operário luta pela emancipação do
proletariado. Mas tal emancipação requer a abolição
de todas as formas de exploração a que os
trabalhadores estão submetidos. Rejeitar a democracia operária
significa muito simplesmente querer manter uma situação
semelhante à actual, na qual as massas trabalhadoras não
são capazes de fazer ouvir as suas opiniões.
A
crítica marxista à democracia burguesa parte da ideia
de que tal democracia é apenas formal, uma vez
que os trabalhadores não possuem os direitos que as
constituições burguesas garantem formalmente a todos os
cidadãos. A liberdade de Imprensa é mera formalidade,
enquanto são apenas os capitalistas e os seus agentes quem
pode obter em conjunto os milhões de dólares
necessários para estabelecer um jornal diário.
Mas
a conclusão que se tira desta crítica à
democracia burguesa é obviamente a de que devem ser criados os
meios que possibilitem que todos os trabalhadores tenham
acesso aos .«mass média» para difusão das
suas ideias (imprensa escrita, comícios,. rádio e
televisão, cartazes, etc.). Se, pelo contrário, se
concluir que só um auto-proclamado «partido dirigente do
proletariado - ou mesmo uma pequena seita que declara ser a única
«genuinamente revolucionária» - tem o direito de
falar, de utilizar a imprensa, ou de propagar as suas ideias, então
corre-se o risco de fazer aumentar a opressão política
dos trabalhadores, em vez de a abolir.
Os
estalinistas respondem muitas vezes que a abolição do
sistema capitalista é igual à emancipação
dos trabalhadores. Concordamos em que a abolição da
propriedade privada dos meios de produção, da economia
baseada no lucro, e do Estado burguês são condições
essenciais para a emancipação dos trabalhadores. Mas,
ao dizermos que são condições «essenciais»,
não queremos dizer que são condições
«suficientes». Porque, uma vez abolido o sistema
capitalista, levanta-se o problema de saber quem vai dirigir as
fábricas, a economia, os municípios, o Estado, as
escolas e as universidades.
Se
um único partido reclama o direito de administrar o Estado e a
sociedade; se impõe pelo terror um monopólio do poder;
se exclui os trabalhadores da administração - então
desenvolve-se inevitavelmente um fosso crescente entre a burocracia
omnipotente e a massa dos trabalhadores.
Então,
a emancipação dos trabalhadores não passará
duma mentira. E sem a verdadeira democracia operária em todos
os campos, incluindo a liberdade de organização e de
imprensa, é impossível a verdadeira emancipação
dos trabalhadores.
Estas razões
de princípio são reforçadas por outras razões
de ordem prática. Como qualquer classe social histórica,
a classe operária não é homogénea. Possui
interesses comuns de classe, bem como interesses imediatos e
históricos. Mas essa comunidade de interesses é
tecida de diferenças de origem vária -
interesses imediatos especiais (profissionais, de grupo, regionais,
etc.) e diferentes níveis de consciência. Muitos
estratos da classe operária não acederam ainda à
consciência dos seus interesses históricos. Outros foram
influenciados pelas ideologias burguesa e pequeno-burguesa. Ainda
outros estão sobrecarregados por um fardo de derrotas e
falhanços do .passado, de cepticismo, ou da degradação
causada pela sociedade capitalista, etc.
O
sistema capitalista não pode todavia ser derrubado sem .a
mobilização de toda a classe operária, unida na
acção comum contra ele. E apenas pode obter-se tal
unidade na acção se os vários interesses
especIais e os vários níveis de consciência
puderem exprimir-se no seu interior e pouco a pouco forem
neutralizados através do debate e da persuasão. Negar
essa diversidade apenas pode servir para quebrar a unidade na .acção
e para levar grupos sucessivos de trabalhadores à passividade
e ao campo do inimigo.
Quem
quer que tenha alguma experiência de luta sabe pela prática
que as acções mais bem sucedidas são preparadas
e conduzidas por meio de inúmeras assembleias, primeiro dos
trabalhadores sindicalizados e depois de todos os trabalhadores
abrangidos. Nessas assembleias, podem desenvolver-se todas as razões
favoráveis à luta, podem exprimir-se todas as opiniões
e expor-se todos os argumentos da classe inimiga. Se se iniciar uma
luta sem o benefício de tal democracia, haverá um risco
muito maior de que muitos trabalhadores a observem
desinteressadamente, se é que a observam.
Se
isto é verdade para uma luta isolada, ainda mais se aplica a
uma luta geral ou a uma revolução. Todas as grandes
mobilizações revolucionárias dos trabalhadores -
desde a Revolução Russa até à explosão
revolucionária de Maio e Junho de 1968 em França e
inclusive as Revoluções Alemã e Espanhola, para
citar apenas alguns exemplos - foram caracterizadas por verdadeiras
explosões de democracia operária. Aí coexistiram
muitas tendências da classe operária, exprimiram-se
livremente em discurso e na imprensa e discutiram perante toda a
classe.
A palavra «soviete»
- conselho de delegados dos trabalhadores - exprime essa união
de opostos - a unidade dos trabalhadores na diversidade das
suas tendências. No Segundo Congresso dos Sovietes Russos, que
tomou o poder na Revolução de Outubro, havia uma dúzia
de tendências e partidos diferentes. Cada ataque repressivo a
tal democracia operária - por parte da Social-Democracia na
Alemanha, dos Estalinistas em Espanha - pressagiou, quando não
exprimiu, um retrocesso ou derrota da revolução.
A
ausência de democracia operária não só
dificulta a uni- dade na acção, como obstrui a
construção de uma linha política correcta.
É
verdade que o movimento operário possui um excelente
instrumento teórico capaz de o guiar nos meandros e viragens
muitas vezes extremamente complicados das lutas sociais e políticas
- o marxismo-revolucionário. Mas tal ferramenta deve ser usada
correctamente. E ninguém tem o monopólio da sua
correcta aplicação.
Marx
e Lenine foram gênios, sem dúvida alguma. Mas a vida e a
história colocam incessantemente problemas novos que não
podem ser resolvidos simplesmente por um regresso às
escrituras. Estaline, considerado «infalível»
antes da sua morte por muitos comunistas honestos, cometeu na verdade
muitos erros, para não dizer muitos crimes, alguns dos quais -
como é o caso da política agrícola - tiveram
consequências funestas durante três décadas para
todo o povo soviético. Mao Tsé-Tung, que outras almas
ingénuas consideram igualmente «infalível»,
subscreveu a política de Aidit, o chefe do PC indonésio,
até à véspera do golpe de Estado militar. Tal
política foi responsável pelo menos em parte da morte
de 500 000 comunistas e trabalhadores indonésios.
Quanto
ao mito de que o comité central de um partido «tem
sempre razão», ou de que a maioria desse comité
«tem sempre razão», o próprio Mao a
rejeitou na célebre resolução aprovada pelo CC
do PCC ( Partido Comunista Chinês) acerca da «revolução
cultural», em Abril de 1967.
Mas,
se nenhuma pessoa ou grupo tem o monopólio da verdade e da
sabedoria, é indispensável a discussão
para determinar uma linha política correcta. Recusar a
discussão sob qualquer pretexto (e o pretexto de que um
opositor político é contra-revolucionário»
ou «um agente do inimigo» é tão velho como
a burocracia), ou substituir o debate por epítetos ou pela
violência física significa condenar-se a permanecer
vítima de idéias falsas, análises inadequadas e
erros, com consequências debilitantes se não
catastróficas.
Diz-se
muitas vezes que o marxismo é um guia para acção.
E é certo. Mas o marxismo distingue-se do socialismo utópico
pelo seu apelo à análise científica. Não
se concentra na acção «per se».
Concentra-se na acção capaz de influenciar a realidade
histórica, capaz de transformá-Ia numa dada direcção
- na direcção da revolução socialista,
rumo à emancipação dos trabalhadores e de toda a
humanidade.
Do
embate das ideias e tendências, emerge a verdade capaz de
servir de guia para a acção. A acção
inspirada pelo pensamento «monolítico», livresco e
infantil - que não se submete à crítica
desinibida, apenas possível num clima de democracia operária
- está condenada ao fracasso. Só pode resultar, no caso
de pequenos grupos, na desilusão e desmoralização
individuais; no caso de sindicatos e de partidos maiores, em derrotas
para a classe; e, no que diz respeito à massa dos
trabalhadores, em derrotas com uma longa sequência de
humilhções, privações e empobrecimento,
se não de baixas.
Estes argumentos a
favor dos princípios e da prática da democracia
operária são muitas vezes contrariados nos círculos
estalinistas pela afirmação de que a democracia dos
trabalhadores não pode ser alargada aos «inimigos do
socialismo» dentro do movimento operário. É
curioso que certos grupos que se proclamam antiburocráticos e
muito de esquerda seguem uma linha semelhante para vaiarem e
assobiarem ou para recorrerem à violência física,
em substituição do debate com os seus opositores
políticos.
Os estalinistas e os
ultra-esquerdistas gritam: «Não se discute com os
revisionistas, com as forças capitalistas e representativas do
inimigo». Na prática, os estalinistas tentam substituir
o debate pela repressão, quando não pelo assassinato e
pelo uso de tanques militares contra os trabalhadores (desde os
Processos de Moscou até à intervenção na
Hungria e na Checoslováquia). Os ultra-esquerdistas limitam-se
mais modestamente a impedir que Garaudy fale, sem dúvida até
ao dia sonhado em que poderão usar de meios mais «efectivos»,
modelados sobre os dos estalinistas...
Claro que as
burocracias da classe operária agem objectivamente no
interesse do Capital, essencialmente canalizando as explosões
revolucionárias periódicas dos trabalhadores para
soluções reformistas, bloqueando assim as oportunidades
do derrube do capitalismo. Desempenham o mesmo papel, influenciando
os trabalhadores no alicerçar diário da colaboração
de classes, minando a sua consciência de classe com ideias
provenientes do mundo burguês.
Mas a função
objectiva e o papel dessas burocracias não se confinam à
manutenção da paz entre as classes. Prosseguindo as
suas actividades reformistas de rotina, entram em conflito com os
interesses diários do capitalismo. Os aumentos de salários
e as leis de segurança social alcançados pelos
reformistas, em troca do seu compromisso de manter as reivindicações
operárias dentro de limites que não ameacem as bases do
sistema reduzem até certo ponto os lucros capitalistas. As
organizações sindicais que dirigem introduzem a força
colectiva do trabalho nas relações diárias entre
patrões e trabalhadores. Como consequência, esses
conflitos têm hoje resultados totalmente diferentes dos do
séulo passado, quando a força dos sindicatos era débil
ou inexistente.
Nos
períodos em que a economia capitalista é florescente, a
burguesia está de acordo em pagar o preço que
representam essas concessões, a troco da «paz social».
Mas, quando a economia capitalista fraqueja, essas mesmas concessões
tornam-se rapidamente inaceitáveis para a burguesia. Então,
é interesse dos capitalistas eliminar totalmente tais
organizações, mesmo as mais moderadas e reformistas. A
própria existência dos sindicatos torna-se incompatível
com a sobrevivência do sistema.
Isto mostra a
verdadeira natureza da burocracia reformista no movimento operário.
Essa burocracia não é composta de proprietários
de capital que comprem força de trabalho para se apropriarem
de mais-valia. É constituida por empregados assalariados (das
organizações dos trabalhadores ou do Estado) que
vacilam e oscilam entre o campo do capital e o do proletariado,
inclinando-se umas vezes para um, outras vezes para outro,
conforme os seus interesses particulares e das pressões a que
são submetidos. E, enfrentando o inimigo de classe, os
trabalhadores de vanguarda têm todos os motivos para fazerem o
máximo para forçar esses burocratas a regressarem ao
seu campo. De outro modo, a defesa comum seria grandemente
enfraquecida.
O desprezo por estas
verdades elementares conduz às piores catástrofes. O
movimento operário aprendeu-o à sua custa durante o
ascenso do fascismo. Nessa época, o «genial»
Estaline inventou a teoria do «Social-Fascismo». Segundo
essa teoria, não haveria qualquer diferença entre os
«revisionistas» social-democratas e os fascistas.
Proclamou-se mesmo que a Social-Democracia tinha de ser derrotada
antes de poder ser ganha a luta contra os nazis.
Enquanto os
trabalhadores social-democratas e comunistas se batiam alegremente -
os dirigentes reformistas compartilham esta responsabilidade, na
época, com os seus correspondentes estalinistas - Hitler
ascendia ao poder, mascarava milhares de militantes operários
e dissolvia todas as organizações operárias. E,
assim, tornava possível a temporária e um tanto amarga
reconciliação entre os social-democratas e os
comunistas... nos campos de concentração. Não
teria sido melhor, sem qualquer concessão à luta
ideológica contra o revisionismo, lutar em conjunto contra os
nazis e impedi-Ios de tomarem o poder?
Numa
escala infinitamente menor e menos trágica, a situação
na universidade pode levar a um dilema do mesmo tipo, durante esta
noite. Todas as tendências de esquerda lutam para que seja
reconhecido o seu direito de realizar «actividades políticas»
dentro da universidade. Mas é muito possível que a
administração tome como pretexto os incidentes que
rodearam esta visita de Garaudy para proibir toda e qualquer outra
conferência política. Que outra via há então
que não seja lutar em conjunto para obter uma liberdade
política mínima na universidade? Não seria
preferível respeitar de hoje em diante as regras da democracia
operária, uma vez que elas são conformes aos interesses
do movimento operário e do movimento de contestação
estudantil?
Em 1957, em resposta
à revelação oficial dos crimes de Estaline feita
no 20º Congresso do Partido Comunista Soviético (que na
altura ele aprovou), Mao Tsé-Tung sublinhou a necessidade de
distinguir cuidadosamente a maneira de resolver as divergências
no seio do povo - pela persuasão, discussão e
experiência prática - e a maneira de proceder em
conflitos com a classe inimiga. E nisso estava apenas a reafirmar
implicitamente a necessidade de manter a democracia operária
«no seio do povo».
Porém, esta
distinção apenas tem sentido se apoiada em critérios
objectivos. O inimigo são os capitalistas (e, em países
menos industrializados, os proprietários de terras). O povo é
a massa de produtos, os trabalhadores dos serviços e, nos
países semi-coloniais, os camponeses pobres.
Se
se substituirem estes critérios objectivos por critérios
subjectivos («Quem quer que não apoie cada uma das
minhas viragens tácticas é um capitalista e um
contra-revolucionário, ainda que tenha sido Presidente da
República Popular da China e vice-presidente do Partido
Comunista Chinês durante 20 anos!»), então cai-se
na mais completa arbitrariedade. Acaba-se, evidentemente, por apagar
qualquer distinção entre ontradições no
seio do povo» e «conflitos com inimigo de classe»,
tratando aquelas cada vez. mais como estes últimos.
Claro
que é impossível separar total e absolutamente na coisa
e outra. É possível que haja casos marginais. Nós
defendemos o debate franco em reuniões de grevistas. Não
pensamos que tenhamos de restringir-nos à discussão
polida com os fura-greves.
Em
cada caso marginal, todavia, temos de distinguir os actos (ou crimes)
das opiniões e tendências ideológicas. Os actos
têm que ser provados e julgados de acordo com critérios
claramente estabelecidos, bem definidos, do interesse dos
trabalhadores (ou, depois do derrube do capitalismo, da legalidade
socialista), de modo a impedir arbitrariedades.
A falta de distinção
entre actos e opiniões apenas pode levar à extinção
da democracia operária, baixando o nível de consciência
e de mobilização dos trabalhadores e roubando
progressivamente aos próprios revolucionários a
possibilidade de orientarem a eles próprios politicamente.
Nota:
(1)
Roger Garaudy (na época era ainda dirigente do Partido
Comunista Francês) visitou a Bélgica em 5 de Novembro de
1968 para fazer uma conferência sobre Maio de 1968 em França,
a pedido da União dos Estudantes Comunistas da Universidade de
Bruxelas. Não foi surpresa para ninguém os estudantes
radicais terem considerado como uma provocação uma
conferência sobre tal assunto feita por um representante do
Partido Comunista Francês.
De
qualquer modo, no início da reunião, uma dúzia
de maoístas, ostentando retratos do Presidente Mao, e de
anarquistas, com uma bandeira negra, tentaram persistentemente e com
bastante êxito impedir Garaudy de se dirigir ao público.
Seguiu-se
um confuso debate no qual se misturou a questão de se dever ou
não permitir que Garaudy tomasse a palavra com a questão
de saber se tinha ou não existido em Maio e em França
uma situação revolucionária.
Finalmente,
maoístas e anarquistas puseram fim ao debate, expulsando
Garaudy da sala de reuniões.
Este
incidente levantou importantes questões acerca das normas do
debate e comportamento democráticos, no seio da classe
operária e do movimento socialista. Em resposta a algumas das
questões levantadas, Ernest Mandel, escreveu um artigo sobre
democracia operária, que foi publicado em duas partes nas
edições de 16 e de 23 de Novembro de 1968 de "La
Gauche".
Fonte: MANDEL,
Ernest. A luta pela democracia socialista na União Soviética.
Lisboa: Edições Antídoto, 1977.
|