Entre 1930 e 1933, Trotsky escreveu muitos artigos sobre o ascenso do nazismo e as tarefas da classe operária para o travar. No livro "Como
vencer o fascismo?" estão reunidos os mais importantes textos de Trotsky e publicamos a introdução a uma das edições, escrita por Ernest Mandel e traduzida para português por Eduardo Velhinho. Lê aqui o texto.
A
teoria do fascismo em Léon Trotsky
ERNEST
MANDEL
A
teoria do fascismo elaborada por Léon Trotsky apresenta-se
como um conjunto de seis elementos; cada elemento é provido de
uma certa autonomia e conhece uma evolução determinada
sobre a base das suas contradições internas; mas não
podem ser compreendidas como totalidade fechada e dinâmica, e
só a sua interdependência pode explicar a ascensão,
a vitória, e o declínio da ditadura fascista.
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O ascenso do fascismo é a
expressão da grave crise social do capitalismo de idade
madura, de uma crise estrutural, que, como nos anos 1929-1933, pode
coincidir com uma crise económica clássica de
superprodução, mas que ultrapassa largamente tal
oscilação da conjuntura. Trata-se fundamentalmente de
uma crise de reprodução do capital, isto é, da
impossibilidade de prosseguir uma acumulação “natural”
do capital, dada a concorrência ao nível do mercado
mundial (nível existente dos salários reais e da
produtividade do trabalho, acesso às matérias-primas e
aos mercados). A função histórica da tomada do
poder pelos fascistas consiste em modificar pela força e
violência as condições de reprodução
do capital em favor dos grupos decisivos do capitalismo monopolista.
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Nas condições do
imperialismo e do movimento operário contemporâneo,
historicamente desenvolvido, a dominação política
da burguesia exerce-se com maior vantagem – isto é, com os
custos mais reduzidos – por intermédio da democracia
parlamentar burguesa que oferece, entre outros, a dupla vantagem de
desarmar periodicamente as contradições explosivas da
sociedade por certas reformas sociais, e de fazer participar,
diretamente ou indiretamente, no exercício do poder político,
um setor importante da classe burguesa (através dos partidos
burgueses, dos jornais, das universidade, das organizações
patronais, das administrações locais e regionais, das
cimeiras do aparelho de Estado, do sistema do Banco central). Esta
forma de dominação da grande burguesia – em nenhum
caso a única, do ponto de vista histórico1
- é, porém determinada por um equilíbrio muito
instável das relações de forças
económicas e sociais. Que este equilíbrio venha a ser
destruido pelo desenvolvimento objetivo, e não reste mais à
grande burguesia senão uma saída: experimentar, ao
preço da renúncia ao exercício direto do poder
político, instalar uma forma superior de centralização
do poder executivo para a realização dos seus
interesses históricos. Historicamente, o fascismo é
portanto ao mesmo tempo a realização e a negação
das tendências inerentes ao capital monopolista e que
Hilferding, o primeiro a revelar, a “organização”
de maneira “totalitária” a vida de toda a sociedade no
seu interesse2
:realização, porque o fascismo preencheu essa função;
negação, porque, contrariamente às ideias de
Hilferding, ele não podia preencher essa função
senão pela expropriação política
completa da burguesia3.
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Nas condições do
capitalismo industrial monopolista contemporâneo, uma
centralização tão forte do poder de Estado, que
implica além disso a destruição da maior parte
das conquistas do movimento operário contemporâneo (em
particular, de todos os “germes
de democracia proletária no quadro da democracia burguesa”
como Trotsky designa justamente as organizações do
movimento operário) é praticamente irrealizável
por meios puramente técnicos, dada a enorme desproporção
numérica entre os salários e os detentores do grande
capital. Uma ditadura militar ou um Estado puramente policial –
para não falar da monarquia absoluta – não dispõe
de meios suficientes para atomizar, desencorajar e desmoralizar,
durante um longo período, uma classe social consciente, rica
de vários milhões de indivíduos, e para
prevenir assim qualquer avanço da luta de classes das mais
elementares, avanço que só o jogo das leis do mercado
desencadeia periodicamente. Para isso, é necessário um
movimento de massas que mobilize um grande número de
indivíduos. Só um tal movimento pode dizimar e
desmoralizar a franja mais consciente do proletariado pelo terror de
massa sistemático, por uma guerra de assédio e de
combates de rua, e, após a tomada do poder, deixar o
proletariado não somente atomizado no seguimento da
destruição total das suas organizações
de massa, mas também desencorajado e resignado. Esse
movimento de massas pode, pelos seus próprios métodos
adaptados às exigências da psicologia das massas, conseguir
não somente que um aparelho gigantesco de porteiros,
polícias, de células do NSBO4
e simples bufos, submeta os assalariados politicamente conscientes
a uma vigilância permanente, mas também a que a parte
menos consciente dos operários e, sobretudo, dos empregados,
seja influenciada ideologicamente e parcialmente reintegrada numa
colaboração de classes efetiva.
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Um tal movimento de massas não
pode surgir senão no seio da terceira classe da sociedade, a
pequena burguesia, que, na sociedade capitalista, existe ao lado do
proletariado e da burguesia. Quando a pequena burguesia é
atingida tão duramente pela crise estrutural do capitalismo
de idade madura, que caia no desespero (inflação,
falência dos pequenos patrões, desemprego massivo dos
diplomados, dos técnicos e dos empregados superiores, etc.),
é então que pelo menos numa parte desta classe, surge
um movimento tipicamente pequeno burguês, mistura de
reminiscências ideológicas e de ressentimento
psicológico, que alia um nacionalismo extremo e uma demagogia
anticapitalista5,
violenta pelo menos em palavras, uma profunda hostilidade em relação
ao movimento operário organizado (“nem marxismo”, “nem
comunismo”). Desde que o movimento, que recruta essencialmente
entre os elementos sem referência de classe da pequena
burguesia, as suas ações e suas organizações,
um movimento fascista nasce. Após uma fase de desenvolvimento
independente, permetindo-lhe tornar-se um movimento de massas e de
tomar ações de massa, ele necessita do apoio
financeiro e político de frações importantes do
capital monopolista para subir ao poder.
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A aniquilação e
esmagamento prévio do movimento operário, quando a
ditadura fascista quer cumprir o seu papel histórico, são
indispensáveis, só se tornam possíveis porém
se, no período precedendo a tomada do poder, o fiel da
balança pende de maneira decisiva em favor dos bandos
fascistas e em desfavor dos operários6.
O ascenso de um movimento fascista de
massa é de certa forma uma institucionalização
da guerra civil, onde, porém, as duas partes têm
objetivamente uma oportunidade de ganhar (é a razão
pela qual a grande burguesia não apoia nem financia tais
experiências senão nessas condições
completamente particulares, “anormais”, porque esta política
de tudo por tudo apresenta incontestavelmente um risco à
partida). Se os fascistas conseguem varrer o inimigo, isto é a
classe operária organizada, a paralisá-lo, a
desencorajá-lo e a desmoralizá-lo, a vitória
está-lhe assegurada. Se, ao contrário, o movimento
operário consegue repelir o ataque e a tomar ele próprio
a iniciativa, ele infligirá uma derrota decisiva não
somente ao fascismo mas também ao capitalismo que o engendrou.
Isso deve-se a razões técnico-políticas e
socio-psicológicas. À partida, os bandos fascistas não
organizam senão a fração mais decidida e a mais
desesperada da pequena burguesia (a sua fração
“enraivecida”).
A massa dos pequenos burgueses, assim como a parte pouco consciente e desorganizada dos assalariados,
sobretudo dos jovens operários e empregados, oscilará
normalmente entre os dois campos. Eles terão tendência
a se alinharem do lado daquele que manifestará maior audácia
e espírito de iniciativa, eles apostam com boa vontade no
único cavalo vencedor. É o que permite afirmar que a
vitória do fascismo traduz a incapacidade do movimento
operário em resolver a crise do capitalismo maduro segundo os
seus interesses e objetivos. De facto, uma tal crise não faz,
geralmente, senão dar ao movimento operário uma
oportunidade de se impor. É somente quando ele deixa escapar
esta oportunidade e a classe é seduzida, dividida e
desmoralizada, que o conflito pode conduzir ao triunfo do fascismo.
f) Se
o fascismo não conseguiu “esmagar o movimento operário
de forma violenta”, ele cumpriu a sua missão na opinião
dos representantes do capitalismo monopolista. O seu movimento de
massa burocratiza-se e funde-se no aparelho de Estado, o que não
pode produzir-se senão a partir do momento onde as formas mais
extremas da demagogia plebeia pequena burguesa, que faziam parte dos
“objetivos do movimento”, desapareceram da superfície e da
ideologia oficial. O que não está de forma nenhuma em
contradição com a perpetuidade de um aparelho de Estado
altamente centralizado. Se o movimento operário foi vencido e
as condições de reprodução do capital no
interior do país modificaram-se no sentido que é
fundamentalmente favorável à grande burguesia, o seu
interesse político confunde-se com a necessidade de uma
mudança idêntica ao nível do mercado mundial. A
falência ameaçadora do Estado desenvolve-se igualmente.
A política do tudo por tudo do fascismo é levada ao
nível da esfera financeira, ateia uma inflação
permanente, e, finalmente não deixa outra saída senão
a aventura militar no exterior. Uma tal evolução não
favorece de forma nenhuma o reforço do papel da pequena
burguesia na economia e na política interior, mas pelo
contrário, ela provoca a deterioração das suas
posições (com a exceção da franja que
pode ser alimentada com as prebendas do aparelho de Estado que se
autonomiza). Não é o fim da “escravatura aos
credores”, mas pelo contrário, a aceleração da
concentração do capital.
É aqui que se revela o
carácter de classe da ditadura fascista, que não
corresponde ao movimento fascista de massa. Ela defende não os
interesses históricos da pequena burguesia, mas os do capital
monopolista. Uma vez esta tendência realizada, a base de massa
ativa e consciente do fascismo retrai-se necessariamente. A ditadura
fascista tende ela própria a destruir e reduzir a sua base de
massa. Os bandos fascistas tornam-se apêndices da polícia.
Na sua fase de declínio, o fascismo torna-se de novo numa
forma particular de bonapartismo.
Tais são os elementos
constitutivos da teoria do fascismo de Trotsky. Ela apoia-se na
análise das condições particulares nas quais a
luta das classes nos países altamente industrializados, se
desenvolve quando a crise estrutural do capitalismo de idade madura
(Trotsky fala da “época
do declínio do capitalismo”
e sobre uma combinação particular – característica
do marxismo de Trotsky – dos fatores objetivos e subjetivos da
teoria da luta de classes e na tentativa de influir na prática sobre ela.
Ernest Mandel
Tradução de Eduardo
Velhinho
Versão original (em francês) aqui.
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