"Durante os dois primeiros meses de 1917, a Rússia ainda era a monarquia dos Romanov. Oito meses mais tarde, os bolcheviques já estavam ao leme do governo, eles que eram desconhecidos no início do ano e cujos líderes, no momento do ascenso ao poder, ainda eram acusados de alta traição. Na história não se encontraria outro exemplo de uma reviravolta tão brusca, sobretudo lembrando-nos que se trata de uma nação de cento e cinquenta milhões de almas." Lê aqui o prefácio da História da Revolução Russa, traduzido por Eduardo Velhinho.
LÉON TROTSKY
HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO RUSSA
PREFÁCIO
Durante os dois primeiros meses de 1917, a Rússia ainda era a monarquia
dos Romanov. Oito meses mais tarde, os bolcheviques já estavam ao leme
do governo, eles que eram desconhecidos no início do ano e cujos
líderes, no momento do ascenso ao poder, ainda eram acusados de alta
traição. Na história não se encontraria outro exemplo de uma
reviravolta tão brusca, sobretudo lembrando-nos que se trata de uma
nação de cento e cinquenta milhões de almas. É claro que os
acontecimentos de 1917 – qualquer que seja a maneira considerada –
merecem ser estudados.
A história de uma revolução, como toda
história, deve, antes de tudo, relatar o que se passou e dizer como.
Mas isso não é suficiente. Segundo a própria narração, é necessário que
se veja nitidamente porquê as coisas se passaram assim e não de outra
forma. Os acontecimentos não poderiam ser considerados como um
encandeamento de aventuras, nem baseados, uns após outros, numa moral
pré-concebida. Eles devem conformar-se com a sua própria lei racional.
É na descoberta desta lei íntima que o autor vê a sua tarefa.
O
traço mais incontestável da Revolução é a intervenção directa das
massas nos acontecimentos históricos. Habitualmente, o Estado,
monárquico ou democrático, domina a nação; a história é feita pelos
especialistas do ofício: monarcas, ministros, burocratas, deputados,
jornalistas. Mas, nos momentos decisivos, quando um velho regime se
torna intolerável para as massas, estas quebram as muralhas que os
separam da arena política, derrubam os seus representantes
tradicionais, e, intervindo assim, criam o ponto de partida para um
novo regime. Que seja bem ou mal, os moralistas que julguem. Quanto a
nós, tomamos os factos tal como eles se apresentam, no seu
desenvolvimento objectivo. A história da revolução é para nós, antes de
mais, a narração de uma irrupção violenta das massas no domínio onde se
regulam os seus próprios destinos.
Numa sociedade em revolução,
as classes estão em luta. É evidente que as transformações que se
produzem entre o princípio e o fim de uma revolução, nas bases
económicas da sociedade e no substrato social das classes, é
insuficiente para explicar a marcha da própria revolução, a qual, num
breve lapso de tempo, deita abaixo as instituições seculares, criando
novas e derrubando-as novamente. A dinâmica dos acontecimentos
revolucionários é determinada directamente pelas conversões
psicológicas rápidas, intensivas e apaixonadas das classes constituídas
antes da revolução.
Uma sociedade não modifica as suas
instituições à medida das necessidades, como um artesão renova as suas
ferramentas. Pelo contrário: praticamente considera as instituições que
a dominam como uma coisa para sempre estabelecida. Durante dezenas de
anos, a crítica da oposição serve de válvula de escape ao
descontentamento das massas e ela é a condição à estabilização do
regime social: tal é, por exemplo, em princípio, o valor adquirido pela
social-democracia. São necessárias circunstâncias absolutamente
excepcionais, independentes da vontade dos indivíduos ou dos partidos,
para libertar os descontentes dos genes do espírito conservador e levar
as massas à insurreição.
As rápidas mudanças de opinião e de
humor das massas, em tempos de revolução, provêm, por consequência, não
da maleabilidade e da mobilidade do psiquismo humano mas do seu
profundo conservadorismo. As ideias e as relações sociais continuam em
permanência atrasadas sobre as novas circunstâncias objectivas, até ao
momento que estas caem em cataclismo, e resulta em tempo de revolução,
sobressaltos de ideias e de paixões que os cérebros de polícias as
representam simplesmente como obra de “demagogos”.
As massas
entram numa revolução não com um plano prévio de transformação social,
mas com o sentimento amargo de não poder tolerar por mais tempo o
antigo regime. É somente o meio dirigente da sua classe que possui um
programa político, o qual tem no entanto necessidade de ser verificado
pelos acontecimentos e aprovado pelas massas. O processo político
essencial de uma revolução é precisamente aquele em que a classe toma
consciência dos problemas postos pela crise social, e que as massas
orientam-se activamente segundo o método das aproximações sucessivas.
As diversas etapas do processo revolucionário, consolidadas pela
substituição a tais partidos por outros sempre mais extremistas,
traduzem a pressão constante reforçada das massas sobre a esquerda,
enquanto este impulso não se quebre contra obstáculos objectivos. Então
começa a reacção: desilusão em certos meios da classe revolucionária,
multiplicação dos indiferentes, e, seguidamente, consolidação das
forças contrarrevolucionárias. Tal é pelo menos o esquema das antigas
revoluções.
É somente pelo estudo dos processos políticos nas
massas que se pode compreender o papel dos partidos e dos líderes que
nós não poderemos de forma nenhuma ignorar. Eles constituem um elemento
não autónomo, mas muito importante do processo. Sem organização
dirigente, a energia das massas volatilizar-se-ia como o vapor não
fechado num cilindro de pistão. Todavia, o movimento não vem nem do
cilindro nem do pistão, mas do vapor.
As dificuldades que
re-encontramos no estudo das modificações da consciência das massas em
tempos de revolução são absolutamente evidentes. As classes oprimidas
fazem a história nas fábricas, nos quartéis e nos campos, nas cidades,
nas ruas. Mas elas não têm o hábito de anotar por escrito o que fazem.
Os períodos onde as paixões sociais atingem a sua mais alta tensão
geralmente não deixam lugar à contemplação e às descrições. Todas as
musas, mesmo a musa plebeia do jornalismo, ainda que ela tenha os
quadris robustos, têm dificuldades em viver em tempos de revolução.
Todavia,
a situação do historiador não é de forma nenhuma desesperada. As notas
tomadas são incompletas, discordantes, fortuitas. Mas, à luz dos
acontecimentos, esses fragmentos permitem muitas vezes adivinhar a
direção e o ritmo do processo subjacente. Bem ou mal, é ao apreciar as
modificações da consciência das massas que um partido revolucionário
baseia a sua táctica. A via histórica do bolchevismo testemunha que
esta avaliação, de certa forma, era realizável. Porquê então o que é
acessível a uma política revolucionária, no turbilhão da luta, não
seria acessível ao historiador retrospetivamente? No entanto, os
processos que se produzem na consciência das massas não são nem
autónomos nem independentes. Que os idealistas e os ecléticos não levem
a mal, a consciência é todavia determinada pelas condições gerais de
existência. Nas circunstâncias históricas da formação da Rússia, com a
sua economia, as suas classes, o seu poder de Estado, na influência
exercida sobre ela pelas potências estrangeiras, deveriam ser incluídas
as premissas da Revolução de Fevereiro e da sua substituta – a de
Outubro. À medida onde parece particularmente enigmático que um país
atrasado tenha sido o primeiro a levar o proletariado ao poder, é
necessário previamente procurar a palavra do enigma no carácter
original do dito país, isto é, no que o diferencia dos outros países.
As
particularidades históricas da Rússia e do seu peso específico são
caracterizadas nos primeiros capítulos deste livro que contêm uma
exposição sucinta do desenvolvimento da sociedade russa e das suas
forças internas. Esperemos que o inevitável esquematizar desses
capítulos não desencoraje o leitor. No seguimento da obra, ele
encontrará as mesmas forças sociais em plena acção.
Esta obra
não é de forma nenhuma baseada em lembranças pessoais. A circunstância
que o autor participou nos acontecimentos não a dispensa do dever de
estabelecer a narração sobre documentos rigorosamente controlados. O
autor fala de si na “terceira pessoa”. Isso não é uma simples forma
literária: o tom subjetivo, inevitável numa autobiografia ou memórias,
seria inadmissível num estudo histórico.
No entanto, pelo facto
que o autor participou na luta, é-lhe naturalmente mais fácil
compreender não somente a psicologia dos actores, indivíduos e
colectividades, mas também a correlação interna dos acontecimentos.
Esta vantagem pode dar resultados positivos, contudo com uma condição:
a de não se relacionar aos testemunhos da sua memória nas pequenas como
nas grandes coisas, na exposição dos factos como em consideração dos
mobiles e dos estados de opinião. O autor considera que tanto que
dependa dele, teve em conta esta condição.
Resta uma questão –
a da posição política do autor que, na sua qualidade de historiador
limita-se ao ponto de vista que era o seu como actor nos
acontecimentos. O leitor não está obrigado, bem entendido, a partilhar
os pontos de vista do autor, e que este último não tem motivo para
dissimular. Mas o leitor tem o direito de exigir que uma obra de
história constitua não a apologia de uma posição política, mas uma
representação intimamente fundada do processo real da revolução. Uma
obra de história só responde plenamente ao seu destino se os
acontecimentos se desenvolvem de página a página, no todo natural da
sua necessidade.
É para isso indispensável que intervenha o que
se chama a “imparcialidade” do historiador? Ninguém explicou ainda
claramente no que isso deve considerar. Muitas vezes cita-se um certo
aforismo de Clemenceau, dizendo que a revolução deve ser tomada “em
bloco”; o que não é mais do que um subterfúgio espiritual: como se
declararia um partidário de um todo que traz em si a divisão? A palavra
de Clemenceau foi-lhe ditada, parcialmente, por uma certa vergonha de
antepassados demasiados resolutos, parcialmente também pelo mal-estar
do descendente diante das suas sombras.
Um dos historiadores
reaccionários, e, por consequência, bem cotados, da França
contemporânea, Sr. Louis Madelin, que caluniou tanto, como homem de
salão, a grande Revolução – quer dizer o nascimento da da nação
francesa – afirma que um historiador deve subir sobre a muralha da
cidade ameaçada e, daí, considerar os cercadores como os cercados. É
somente assim, segundo ele, que se chegaria à “justiça que reconcilia”.
Porém, as obras do sr. Madelin provam que, se ele sobe à muralha que
separa os dois campos, é somente na condição de batedor da reacção.
Felizmente, aqui trata-se de campos de outrora: em tempos de revolução,
é extremamente perigoso manter-se nas muralhas. Aliás, no momento de
perigo, os pontífices duma “justiça que reconcilia” continuam
normalmente fechados em casa, esperando para ver para qual lado se
decidirá a vitória.
O leitor sério e dotado de sentido crítico
não precisa de uma imparcialidade falaciosa que lhe estenderia a taça
do espírito conciliador, saturada por uma boa dose de veneno, com
sedimento de ódio reaccionário, mas falta-lhe a boa-fé científica que,
para exprimir as sua simpatias, francas, sem máscaras, procura
apoiar-se sobre um honesto estudo dos factos, sobre a demonstração das
relações reais entre os factos, sobre a manifestação do que tem de
racional no desenrolamento dos factos. Aí somente é possível a
objetividade histórica, e ela é então suficiente, porque é verificada e
certificada de outra forma que vai além das boas intenções do
historiador – que aliás garante – mas pela revelação da lei íntima do
processo histórico.
As fontes desta obra consistem em numerosas
publicações periódicas, jornais e revistas, memórias, processos verbais
e outros documentos, alguns manuscritos, mas a maior parte publicados
pelo Instituto de História da Revolução, em Moscovo e Leninegrado.
Julgámos inútil dar no texto referências que estorvariam o leitor.
Entre os livros de história que têm carácter de estudo de conjunto,
utilizámos os dois volumes de Ensaio sobre a História da Revolução de
Outubro ( Moscovo-Leninegrado, 1927). Esses ensaios redigidos por
diversos autores não têm todos o mesmo valor, mas contêm, de qualquer
forma, uma documentação abundante sobre os factos.
As datas
referidas nesta obra são as do antigo estilo, isto é, elas atrasam 13
dias no calendário universal, actualmente adoptado pelos sovietes. O
autor foi forçado a seguir o calendário utilizado na época da
Revolução. Não seria difícil, na verdade, transpor as datas no estilo
moderno. Mas esta operação, que eliminaria certas dificuldades, criaria
outras mais graves. A queda da monarquia inscreveu-se na História sob o
nome de Revolução de Fevereiro. Porém, segundo o calendário ocidental,
o acontecimento teve lugar em Março. Certa manifestação armada contra a
política imperialista do governo provisório foi marcada na história
como “jornadas de Abril”, enquanto, segundo o calendário ocidental, ela
teve lugar em Maio. Não nos detenhamos sobre outros acontecimentos e
datas intermediárias, notemos ainda que a Revolução de Outubro
produziu-se, para a Europa, em Novembro. Como se vê, o próprio
calendário tomou a cor dos acontecimentos e o historiador não pode
desembaraçar-se das efemérides revolucionárias pela simples operação de
aritmética. Queira o leitor lembrar-se que antes de suprimir o
calendário bizantino, a Revolução teve que abolir as instituições o
temiam conservar.
Léon Trotsky
Prinkipo, 14 Novembro 1930
Tradução de Eduardo Velhinho
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