A Quarta Internacional foi fundada quando ocorria a “meia-noite do século”. O fascismo estava a fortalecer-se, a contra-revolução tinha triunfado na URSS e o Estalinismo sufocava o movimento dos trabalhadores revolucionários por todo o mundo. Em contraste com as Internacionais precedentes esta não foi levada a cabo por ondas de lutas de trabalhadores e um crescimento do movimento da classe operária. Lê aqui a tradução portuguesa do artigo de François Sabado.
A Primeira Internacional surgiu depois das explosões revolucionárias na Europa de 1848. A Segunda Internacional foi a incarnação do crescimento e da organização do movimento dos trabalhadores no final do século XIX e início do século XX. A Terceira Internacional foi lançada depois da Revolução Russa. Mas a Quarta Internacional manteve-se contra a corrente, numa altura de enormes derrotas históricas para o movimento dos trabalhadores. Também, ao contrário de certas previsões, em particular as de Trotsky que, tomando o exemplo da Terceira Internacional depois da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa, previu o desenvolvimento de uma massiva Quarta Internacional após a Segunda Guerra Mundial, esta manteve-se uma organização minoritária.
Mas a fundação da Quarta Internacional não foi justificada por previsões ou por respostas à conjuntura do período, foi justificada pela necessidade, confrontada com as traições da social democracia e do Estalinismo, de afirmar uma alternativa histórica, uma nova corrente política que conseguisse assegurar a vitalidade programática, teórica, política e continuidade de um movimento operário revolucionário. Não foi uma questão de proclamar uma "Internacional Trotskista". Era necessário, no momento em que com a guerra tudo estava a ser destruído, preservar a herança do Marxismo, não em ordem de o "conservar" para melhores dias, mas com o objectivo de auxiliar a luta política e a construção de novos partidos revolucionários.
Contra-corrente
A origem esteve na Oposição de Esquerda ao Estalinismo. Mas a Quarta Internacional era muito mais que isso. Manteve uma certa visão do mundo, marcada pelo internacionalismo - que já fluía através de uma certa globalização capitalista que era oposta pelo "socialismo num só país" de Estaline. Toda a sua luta estava condicionada pela luta de classes, pelos elementos de um programa de transição para o socialismo, por uma frente unida de trabalhadores e das suas organizações, pela independência do movimento dos trabalhadores face aos governos de colaboração de classe nos países capitalistas desenvolvidos - as fórmulas diferentes da União da Esquerda e da Esquerda plural -, mas também com respeito às burguesias nacionais nos países dominados pelo imperialismo, o que ficou na história como a teoria da revolução permanente. Onde muitos comentadores reduziram a sua análise do mundo no último século a campos ou estados - os EUA e a ex-URSS -, a Quarta Internacional reforçou as lutas dos povos e trabalhadores contra o imperialismo e contra a burocracia Soviética.
A Quarta Internacional não ficou confinada à defesa do Marxismo de um forma geral ou dogmática. Ernest Mandel, por exemplo, analisou as dinâmicas do desenvolvimento do capitalismo, dos anos 50 aos anos 70. Documentos programáticos foram discutidos e adoptados por congressos internacionais em questões como a democracia socialista, feminismo e ecologia. Confrontado com o Estalinismo, Trotsky e o seu movimento distinguiram-se, dos anos 30 em frente, por defenderem tenazmente o socialismo democrático. Estas referências permitiram a muitas gerações, especialmente hoje, numa altura em que os livros escolares confundem comunismo com Estalinismo, a distinguir entre a Revolução Russa e contra-revolução Estalinista, para manter o objectivo da revolução e ser capaz, apesar das derrotas, de "começar de novo".
O nosso movimento tem ainda outra singularidade, mesmo em relação a outros movimentos trotskistas: a de reconhecer processos revolucionários, anti-imperialistas e socialistas mesmo quando os seus líderes os desprezam, com uma profunda solidariedade contra o imperialismo. Nós defendemos claramente as revoluções da China, Jugoslávia, Vietname, Argélia, Cuba e Nicarágua. Em particular a nossa relação com a experiência de Che Guevara expressa a nossa vontade de nos ligarmos aos processos revolucionários.
Novo período...
Claro que tudo isto não foi feito sem nenhum erro ou falha política. Enquanto combatiamos o Estalinismo e expressávamos a nossa solidariedade com os povos da Europa do Leste contra a burocracia, o nosso movimento subestimou a extensão da destruição causada pelo Estalinismo, que, depois do colapso soviético, deixou a estrada aberta, não a uma revolução política e anti-burocrática ou a um movimento de massas para o socialismo democrático, mas à restauração do capitalismo. Na nossa solidariedade com as revoluções coloniais, no entusiasmo de viver a revolução, subestimamos os problemas que lhe estavam ligados. Não exercitamos suficientemente a tarefa do criticismo. Mas as organizações da Quarta Internacional demonstraram outra fraqueza, muitas vezes ligada com a sua pequena dimensão: o carácter propagandista, algumas falhas sectárias, um estilo de "conselheiros" políticos de outras forças mais fortes, geralmente partidos reformistas... "Façam o que nós não podemos fazer!", dissemos-lhes...
O trotskismo sofreu também do fraccionamento. Há um provérbio bem conhecido que diz: "um trotskista, um partido; dois trotskistas, duas facções; três trotskistas: uma cisão..." Embora tenham desaparecido ao longo dos últimos 70 anos várias organizações e correntes revolucionárias, a Quarta Internacional manteve-se. Não cumpriu os seus objectivos históricos, sofreu altos e baixos, houve grandes crises em alguns países - no Brasil, recentemente -, mas houve também avanços importantes, como em França, e experiências positivas, como em Portugal, Itália, Paquistão e nas Filipinas. Esse é um feito considerável.
Num momento em que a LCR (Ligue Communiste Révolutionnaire, de França) quer escrever uma nova página na história do movimento dos trabalhadores, temos de saber de onde vimos, para podermos "enriquecer com conteúdos revolucionários" os processos de reorganização do movimento operário que estão a acontecer. Porque estamos de facto num ponto de viragem histórico. A Quarta Internacional é o produto de um período marcado pela força da Revolução Russa, mas o seu programa e a realidade da actividade dos seus membros vai para além desta história. Contudo, nada está garantido. "Novo período, novo programa, novo partido", isso significa também uma nova Internacional. Não pode ser apenas proclamada, e o caminho vai ser longo. Mas os camaradas da Quarta Internacional farão o necessário para a fazer existir.
François Sabado é dirigente da IV Internacional e da sua secção francesa,
a Liga Comunista Revolucionária.
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