O texto fundador da corrente política que viria a dar origem à LCI foi escrito em Dezembro de 1971.
Os Grupos de Acção Comunista reivindicavam a tradição internacionalista do movimento operário e a crítica ao estalinismo, numa altura em que subia de tom o debate ideológico entre as diferentes correntes de esquerda que lutavam na clandestinidade contra a ditadura.
ANTES DA LCI
Grupo de Acção Comunista
Dezembro 1971
Princípios Gerais
1. O grupo de Acção Comunista Outubro
é um grupo de militantes comunistas internacionalistas que, tendo
constatado a crise de direcção revolucionária à escala mundial e
nacional do movimento operário, se propõe desenvolver todo um conjunto
de tarefas teóricas, políticas e organizativas visando o rearmamento do
proletariado em Portugal e a sua ligação política e organizativa com o
Partido Mundial da Revolução Socialista.
2. O G.A.C. Outubro
considera portanto estarem esgotadas as possibilidades históricas de
uma oposição de esquerda nacional e internacional às direcções
reformistas ou centristas, e que, consequentemente, a tarefa
estratégica prioritária é a construção de partidos Internacionalistas
Revolucionários de massas capazes de servirem de instrumentos tácticos
a nível nacional duma estratégia internacional do proletariado definida
e centralizada pelo Partido Mundial da Revolução Socialista.
3.
O G.A.C. Outubro assenta na tradição internacionalista veiculada pelas
resoluções dos quatro primeiros Congressos da Internacional Comunista
(I.C.), pela Oposição Internacional de Esquerda, pelo movimento para a
IVª Internacional, pelo Programa de Transição e pelos posteriores
documentos essenciais do movimento trotskista internacional,
nomeadamente: a Dialética actual da Revolução Mundial ( do Congresso de
Reunificação de 1963) e pelas resoluções do 9º Congresso Mundial da IV
Internacional (1969).
Consideramos
a IV Internacional o núcleo organizador e centralizador do trabalho
teórico, político e organizativo visando a construção duma
Internacional Revolucionária de massa, Partido Mundial da Revolução
Socialista.
4.
No que particularmente toca a Portugal, consideramos que o PCP
constitui um instrumento poderoso de penetração e difusão da ideologia
burguesa e pequeno-burguesa (chauvinismo, demo-liberalismo, populismo)
no seio do movimento operário e das massas oprimidas, de desarmamento
político, teórico e organizativo do proletariado português, de difusão
de uma linha política cuja consequência é atrelar o proletariado aos
interesses historicamente caducos de classes e fracções de classes não
proletárias e constitui ainda um instrumento privilegiado de
resistência organizada à emergência e implantação de uma linha política
proletária internacionalista que vise articular a luta operária em
Portugal com a revolução proletária nas metrópoles imperialistas, nos
países coloniais e semi-coloniais e com a revolução política nos
Estados operários degenerados ou burocraticamente deformados. O G.A.C.
Outubro considera o PCP como um partido radical reformista (capaz
embora de incursões temporárias no terreno movediço do centrismo, como
parece poder vir a tornar-se o curso actual da fracção pró-Moscovo da
burocracia internacional, nas condições particulares da actual crise do
estalinismo), incapaz de regeneração interna e destinado a trair, como
até agora, os interesses históricos do proletariado, num eventual
período de crise política aguda do sistema (como, por exemplo, o
decorrente da eventualidade dum colapso militar nas colónias
acompanhado de um movimento geral contra a guerra, em que tenha sido
escamoteada a questão central da autonomia e hegemonia de uma linha
proletária internacionalista no seio do movimento popular no seu
conjunto – escamoteamento este que continua a ser a forma dominante e
conteúdo essencial da linha política do PCP).
5.
Consideramos,que, num período como esse – caracterizado pela entrada em
luta aberta na cena política de várias camadas sociais com interesses
de classe diversos e divergentes – só um novo partido verdadeiramente
revolucionário e internacionalista – teórica, política e organicamente
ligado ao Partido Mundial da Revolução – o qual, desde muito antes,
tenha preparado o proletariado segundo uma linha autónoma de classe e
se possa introduzir nas condições objectivas como factor capaz de
modificar a relação de forças – poderá impulsionar a classe operária,
para a tomada real e sem partilha, do poder de Estado, arrastando atrás
de si outras camadas oprimidas, suas aliadas tácticas na fase actual da
revolução proletária em Portugal.
6.
Consideramos que nas particularidades da crise do estalinismo em
Portugal – a qual, entretanto, se processa sem reflexos apreciáveis na
movimentação real da classe operária, antes limita a sua influência à
pequena-burguesia radicalizada e os parcos elementos de “vanguarda”
organizados e reclamando-se da classe operária – se encontra
historicamente condenada e a médio prazo, a implantação nas massas
operárias da linha maoista, embora seja de prever a continuação por
breve prazo da capitalização dos dividendos das críticas ao radical
reformismo do P.C.P.. Contudo, a sua subordinação carismática ao P.C.
chinês, a sua condição inelutável de peão de brega do xadrez
diplomático e dos interesses nacionais do Estado chinês – como de resto
se passa mutatis mutandis com o papel do P.C.P. relativamente à
U.R.S.S. – inibem-na da possibilidade de condução de uma “revolução
popular” consequente – de resto, mesmo que sob a égide de uma “Frente
Unida de Massas Populares” e visando tão-só a instauração de uma
República Democrática-Popular. O efectivo cumprimento desta estratégia
é impossível dada a incapacidade da sua implantação em meio operário, a
polarização natural da pequena-burguesia em torno do P.C.P. ou doutras
formações radicais reformistas, para não falar sequer da ausência da
sua ligação a uma força revolucionária internacional capaz de articular
orgânica e militarmente “os movimentos populares” em Portugal e nas
colónias.
De resto, a entrada da China na cena diplomática internacional –
acompanhada da adopção por parte daquela de um curso direitista típico
– irá reflectir-se em Portugal, como igualmente na cena internacional,
por um agravamento do conflito inter-burocrático no qual as diferenças
ideológicas de fundo se irão contudo esbatendo cada vez mais.
6.a)
Resulta disto que, dada a pertinácia característica das organizações
estalinistas pró-Moscovo na Europa Ocidental, e a exclusividade da sua
implantação – ainda que fraca, em certos sectores da classe operária
portuguesa, consideramos o PCP como o principal inimigo burocrático
estratégico e táctico do rearmamento teórico, político e organizativo
do proletariado português.
Tal não significa contudo, o abrandamento da vigilância de classe, o
abandono da crítica permanente ou o estabelecimento de qualquer
plataforma táctica ou estratégica em relação à tendência maoista, mas
tão só que a direcção principal do esforço deve ser a de arrancar os
elementos de vanguarda da classe operária e do proletariado em geral à
influência da linha política radical reformista do PCP.
7. O cumprimento integral das tarefas dos pontos 1 e 2 exige a realização prévia das seguintes condições:
a) A delimitação teórica, política e organizativa dos comunistas internacionalistas através da aceitação de:
- a teoria marxista das formações e transformações sociais;
-
a teoria da revolução permanente de Trotsky e a teoria leninista de
organização assentes na actualidade da revolução socialista
internacional;
- a teoria da revolução proletária de Marx-Lenine-Trotsky;
- a teoria do internacionalismo proletário definida pelos Quatro primeiros Congressos da IC;
-
a teoria do Partido Mundial da Revolução Socialista definida pelos
Quatro primeiros Congressos da IC e, nomeadamente, sobre o papel dos
partidos comunistas nas questões nacional, colonial e agrária;
-
a ditadura mundial do proletariado (o estabelecimento da República
Mundial dos Sovietes como forma dessa ditadura), instrumento de
transição entre o capitalismo e o socialismo;
-
que a crise mundial se reduz, em última análise, à crise da direcção
revolucionária, dada a actualidade da Revolução Socialista
internacional – que só um programa de transição poderá preencher o
fosso existente entre o nível actual de consciência das massas
operárias e o nível exigido para o derrubamento da burguesia
internacional, ao mesmo tempo que lhe proporcionará os meios
organizacionais necessários para o cumprimento cabal da sua missão
histórica;
- a teoria da degenerescência estalinista feita por Trotsky.
O que significa nas condições actuais o aceitar:
- a IV
Internacional como núcleo organizador e centralizador do trabalho
teórico, político e organizativo visando a construção duma
Internacional Revolucionária de massas, do partido Mundial da Revolução
Socialista;
-
a consideração de que a resolução da crise da direcção revolucionária
passa pela resolução da crise de implantação, no proletariado mundial,
da vanguarda, e cujo obstáculo principal é constituído pela influência
dos aparelhos estalinistas implantados nas massas operárias;
-
que o aparecimento à escala mundial dos comunistas internacionalistas
como força política efectiva e, relativamente a Portugal, a fraca
implantação do PCP, os seus métodos de direcção burocráticos, agravados
pela necessidade absoluta da luta clandestina, significam a definitiva
caducidade do entrismo como táctica de implantação e formação da
vanguarda proletária em Portugal.
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